César Oliveira critica "morcegos" da cultura Postado terça-feira, 16 de fevereiro de 2010 ás 13:46


Matéria de Giovani Grizzoti

Eu iria publicar o texto abaixo apenas após o carnaval. Mas diante da repecurssão da matéria de hoje ZH, aqui vai o artigo redigido por um dos maiores expoentes de nossa música nativa, se não o maior: César Oliveira, da dupla César Oliveira & Rogério Melo.

É um texto pra guardar e ler sempre que surgir um desses espertinhos querendo menosprezar o mais gaúcho dos estilos musicais. Leiam e opinem, por favor!

Por que “a música gaúcha é intragável”?

Depois de ler a entrevista de Nei Lisboa no jornal Zero Hora, gostaria de ter a oportunidade de perguntar pessoalmente ao conceituado e respeitável músico o por que desta declaração. Considero-me uma pessoa bastante esclarecida, certamente mais do que muitos dos supostos “intelectuais” da música porto alegrense. Usufruindo de uma simbologia, me refiro, mais especificamente, a artistas de grande cunho intelectual que assemelham-se a “morcegos”, pois somente os encontramos à noite circunscritos a uma área restrita em bairros tradicionalmente boêmios de nossa capital.
Seu universo pode ser metaforizado como uma caverna obscura, em que só se projetam inspirações de temáticas desordenadas, em invés de nos projetar a longínquos pagos, verdes campos, heróicas, nostálgicas e românticas histórias de nosso rico povo rio-grandense. Porto Alegre, a capital dos gaúchos, ainda possui uma muralha imaginária levantada por milhares de tijolos forjados pelo preconceito.
Felizmente, graças a muitos esforços daqueles que produzem e vivem para elevar a cultura e o folclore do Rio Grande do Sul, noto que nos últimos anos este panorama vem mudando e estão se aparando as arestas da discriminação. Os comentários de Nei Lisboa, na contramão desta saudável evolução, somente reforçam o preconceito e a má vontade que estigmatizam as pessoas envolvidas e identificadas com a cultura regional. Se porventura o notável artista aqui citado fosse realmente uma pessoa esclarecida, veria que valoriza o regionalismo, é apenas cego para suas raízes.
Causa-me estranhamento que o referido músico se sinta à vontade para gravar um candombe, ritmo típico do folclore Uruguaio - uma música de raiz proveniente da África trazida pelos escravos - ou um tango - de origem argentina, executado de início por guitarreiros com temática folclórica – mas diga que não colheu nada de referenciais da música regionalista, como TEIXEIRINHA. Nei Lisboa valoriza as manifestações musicais embasadas no folclore - Uruguaio e Argentino , porém chama de intragável a música regional produzida no Rio Grande do Sul, que somado a estes dois países, forma e sustenta uma cultura viva e riquíssima, a dos
“GAUCHOS/GAÚCHOS”.
A diferença entre os músicos destes países “hermanos” e os “nossos” intelectuais musicistas é que eles não possuem preconceito com suas raízes, muito pelo contrário, possuem sim orgulho e buscam dignificá-la. Felizmente, o Rio Grande do Sul tem inúmeros representantes orgulhosos de sua cultura, como Yamandú Costa, projetado, consagrado e reconhecidíssimo no cenário musical mundial como instrumentista gerado no mais puro folclore gaúcho.
Este sim é esclarecido, assim como inúmeros instrumentistas, poetas, intérpretes, que comporiam uma farta listagem de pessoas que possuem orgulho de sua procedência. Não concordo, por todo o exposto, com a opinião de Nei Lisboa, mas respeito-a e, mais do que tudo, respeito seu direito de expressá-la. Contudo, não posso me furtar de sublinhar o absurdo da frase “a música gaúcha é intragável para qualquer pessoa mais esclarecida”. ]
Como eu, tenho certeza de que outras milhares de pessoas esclarecidas, ficam apavoradas quando a generalização se sobrepõe a análise criteriosa e quando o preconceito se manifesta de forma deliberada. E, para finalizar, acredito que nós precisamos, sim, de um MOVIMENTO TRADICIONALISTA GAÚCHO. Precisamos também que este use, com coerência, sua posição para sustentar o ideal de folclore.
Do contrário, lenço só de bolso, e este nem se usa mais. Se alguém não consegue usufruir da riqueza de uma vasta cultura regional por puro PRECONCEITO, que pena, pois é “intragável” tal filosofia.

César Oliveira

Foto: Divulgação
Fonte: Blog Roda de Chimarrão/Clic RBS.

3 Responses so far.

  1. Anônimo says:

    Parabéns ao César, pois teve a boa vontade de fazer um contra-ponto ao escrito por Nei Lisboa. Digo boa vontade, pois não sei se valeria a pena tão digno representante de nossa tradição perder seu tempo com, como diria o Brizola, "uma nulidade de artista", como mostrou quando perdeu de ficar com a boca fechada.

    Sempre gostei deste musico e compositor gaúcho, que muito influenciou o Rock do sul do Brasil. Mas desta vez, foi completamente infeliz. O Rock'n Roll, verdadeiro, cru, base de todas as bandas inglesas e norte-americanas, que influenciaram o resto do mundo, originou-se, no Blues e no Ritm'n blues. E o que são estes rítimos senão a mais pura cepa da música nativa americana, vindo dos escravos negros e dos caipiras brancos dos EUA.

    Talvez para o Nei estes estilos também sejam "intragavéis", mas desde de que ele cantou sua primeira música ele imita (sim, imita, pois as raízes não são suas, a não ser que ele seja um filho do "Tio Sam"). Nada contra o Rock e outros generos musicais, tem lugar e público para todos os gostos. É a democracia.

    É uma pena, mas o Nei, como disse o César Oliveira, vai continuar sendo apenas um morcego (com o perdão do animalzinho tão útil ao meio-ambiente) e não vai acrescentar nada às nossas vidas. Nem ao menos o divertimento, que é o principio de tudo. Muito menos uma idéia ou um ideal, como faria um chamamé missioneiro.Como disse o grande "Noel Guarany", "regionalismo não me agrada. Eu prefiro cantar o NATIVISMO...".

    E finalmente, parabéns ao Rafael, por estar atento a estes debates.

    Marcos, de Santiago/RS (sem querer me exibir).

  2. beto says:

    RAFAEL TRADICIONALISTA N]AO É USAR LENÇO OU BOMBACHA TEM GENTE QUE NAO USA E AMA AS COISAS DO PAGO
    O QUE ACONTECE É QUE TROCAMOS DE IDEAIS COMO QUEM TROCA DE CAMISA
    MU IDEAL É UM RIO GRANDE GRANDE
    SEMDEMAGOGIAS, SEM GAUCHOS DE 7 DE SETEMBRO, SEM CAVALEIROS SEMCAVALOS, EMPRESTASOS POR CTG QUE QUEREM BASTENTE GENTE NO SEU DESFILE
    SER GAUCHO ANTES DE TUDO É ESPIRITO É GOSTAR DO NOSSO MEIO
    É RESPEITAR PAI E MÃE É PENSAR NO FUTURO COMO COISA PARA TODOS NÃO ALGO SO PRA TI.
    UM ABRAÇO BETO MENEGAT

  3. Billy Joe says:

    O Nei Lisboa ta conseguindo exatamente o que quer.Aparecer,pois precisava disso.Ja faz quantos anos que o estilo musical dele ta ultrapassado??Que não tem mais espaço para bestas tipo ele metidos a intelectual.Mas claro,ele fez o certo.Mexer com os gauchos e sua cultura musical é mexer com marimbondos.Agora ele ta na mídia...

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