Investigação aponta que disputa pela guarda de uma criança teria motivado plano envolvendo uma policial militar, um advogado e outros dois investigados. Armas, munições e drogas teriam sido colocadas clandestinamente na residência das vítimas para provocar uma prisão em flagrante.
Uma investigação conduzida pela Polícia Civil de Jaguari revelou indícios de uma suposta trama criminosa que teria sido cuidadosamente planejada para incriminar um morador do município e sua companheira. O caso, que inicialmente parecia envolver violência doméstica, posse ilegal de arma de fogo e tráfico de drogas, ganhou novos contornos após um minucioso trabalho investigativo, que identificou possíveis responsáveis pela introdução clandestina de materiais ilícitos na residência do casal.
Os fatos ocorreram na noite de 12 de julho de 2026, quando a Brigada Militar recebeu aproximadamente 19 ligações telefônicas, informando que um homem estaria agredindo sua companheira e efetuando disparos de arma de fogo. Os denunciantes chegaram a indicar o local exato onde uma arma estaria escondida: um vaso de flores no pátio da residência.
Ao chegarem ao imóvel, os policiais militares localizaram uma bolsa contendo um revólver calibre .32 com numeração suprimida, munições de diferentes calibres, aproximadamente 75 gramas de cocaína e 49 gramas de maconha, parte dela fracionada em porções.
Diante da apreensão dos materiais ilícitos, o casal foi preso em flagrante pela Brigada Militar e conduzido à Delegacia de Polícia de Pronto Atendimento (DPPA) para os procedimentos legais.
Entretanto, algumas circunstâncias despertaram a atenção dos investigadores. Apesar das denúncias de violência doméstica, o casal encontrava-se tranquilo, não havia sinais de agressões e ambos negavam qualquer discussão. Também afirmavam desconhecer a origem da arma e dos entorpecentes, sustentando que os objetos poderiam ter sido colocados no imóvel por terceiros com a intenção de prejudicá-los.
O que parecia ser uma ocorrência policial comum transformou-se em uma investigação sobre uma possível armação criminosa.
Câmeras de segurança revelaram movimentação suspeita
A Polícia Civil passou a analisar imagens de câmeras de segurança da residência e de imóveis próximos. As gravações revelaram que um veículo Fiat Pulse branco circulou repetidamente nas proximidades do local, aparentemente monitorando a movimentação da residência.
Por volta das 22h18min, as câmeras registraram um indivíduo vestindo moletom claro, com o rosto aparentemente encoberto, aproximando-se do imóvel enquanto carregava um volume sob a roupa. A suspeita dos investigadores é de que esse tenha sido o momento em que a bolsa contendo drogas, arma e munições foi introduzida clandestinamente no pátio.
O aprofundamento das diligências permitiu identificar o automóvel utilizado e reconstruir seu deslocamento. O veículo havia saído da Região Metropolitana de Porto Alegre e, após os acontecimentos, retornou durante a madrugada, passando por diversas praças de pedágio da BR-287.
Imagens obtidas nas cabines de pedágio também registraram um homem e uma mulher se revezando na condução do automóvel, fornecendo novos elementos para a identificação dos suspeitos.
Investigação tecnológica foi fundamental para identificar os envolvidos
Um dos pontos decisivos da investigação foi a análise das ligações realizadas ao telefone de emergência 190.
A Polícia Civil descobriu que as 19 chamadas haviam partido de apenas duas linhas telefônicas, ambas habilitadas exatamente no dia dos acontecimentos e cadastradas em nome de terceiros.
A partir de informações fornecidas pelas operadoras de telefonia, os investigadores identificaram os aparelhos utilizados nas chamadas, seus respectivos códigos de identificação e as contas digitais vinculadas aos equipamentos.
O cruzamento desses dados permitiu estabelecer vínculos entre os telefones e dois investigados: uma policial militar lotada em Porto Alegre e um homem suspeito de participar diretamente da execução do plano.
Além disso, a análise dos registros de conexão dos celulares às antenas de telefonia demonstrou que os aparelhos se deslocaram da Região Metropolitana até Jaguari, permaneceram na cidade durante os acontecimentos e retornaram após a meia-noite.
Essas informações coincidiram com os registros de deslocamento do automóvel identificado nas imagens de segurança, reforçando a hipótese de uma ação coordenada.
Disputa pela guarda de criança seria a motivação
Conforme a investigação, a motivação da suposta armação estaria relacionada a uma disputa judicial pela guarda de uma criança, envolvendo o morador de Jaguari e sua ex-companheira.
A Polícia Civil reuniu elementos que sustentam a hipótese de que a mulher teria idealizado e coordenado a ação, contando com a colaboração de seu advogado, que teria fornecido apoio logístico e viabilizado o automóvel utilizado pelos executores.
O veículo havia sido locado em Porto Alegre, sendo identificado o advogado como responsável por sua retirada e entrega junto à locadora.
Segundo a linha investigativa, a intenção seria colocar materiais ilícitos na residência do homem e, posteriormente, provocar uma intervenção policial por meio de denúncias reiteradas, fazendo com que ele fosse responsabilizado por crimes que não teria cometido.
A investigação também identificou que, aproximadamente dois meses antes, o mesmo homem havia sido abordado pela Polícia Rodoviária Federal após uma denúncia de que transportaria armas em seu veículo. Na ocasião, nada de ilícito foi encontrado. A Polícia Civil apura se os episódios possuem alguma relação.
Quatro pessoas investigadas e pedido de prisão temporária
Com o avanço das diligências, a Polícia Civil individualizou a possível participação de quatro investigados, entre eles a ex-companheira da vítima, seu advogado, uma policial militar e outro homem.
Conforme a representação policial, a ex-companheira e o advogado teriam participado do planejamento e da organização da ação, enquanto os outros dois suspeitos teriam atuado na execução material, no deslocamento até Jaguari e nas comunicações destinadas a provocar a intervenção policial.
A participação de uma integrante da Brigada Militar é considerada especialmente grave pela investigação, diante da suspeita de utilização de conhecimentos relacionados à atividade policial para viabilizar a ação criminosa.
Os fatos são investigados sob a perspectiva de possíveis crimes de associação criminosa, tráfico de drogas, infrações relacionadas a arma de fogo e delitos envolvendo falsas comunicações às autoridades.
Diante dos elementos reunidos, a autoridade policial representou pela prisão temporária dos quatro investigados, pelo prazo de 30 dias, visando ao aprofundamento das diligências e à completa elucidação dos acontecimentos.
Trabalho investigativo revelou possível tentativa de manipulação da atuação policial
O caso evidencia a importância da investigação criminal baseada no cruzamento de diferentes fontes de informação. Imagens de videomonitoramento, registros de pedágio, dados de operadoras telefônicas, identificação de aparelhos celulares e informações de contas digitais foram fundamentais para reconstruir os acontecimentos.
A Polícia Civil também busca esclarecer a eventual participação de outras pessoas e aprofundar a análise de elementos financeiros e digitais relacionados aos investigados.
A gravidade do caso está no fato de que a suposta armação teria alcançado seu objetivo inicial: provocar a prisão em flagrante de duas pessoas mediante a introdução clandestina de armas, munições e drogas em sua residência.
A investigação demonstra como uma ocorrência inicialmente apresentada como situação de violência doméstica e posse de materiais ilícitos pode revelar circunstâncias completamente diferentes daquelas comunicadas às autoridades.
O caso segue sob apuração, sendo assegurados aos investigados o direito de defesa e a presunção de inocência. A responsabilização criminal dependerá da confirmação dos elementos investigativos e da apreciação pelo Poder Judiciário.